terça-feira, 19 de outubro de 2010

UMA TARDE DE SOL RADIANTE

Sai por ai, por esta Lisboa,á procura do tempo!..
Tempo passado,por ruas estreitas, becos, escadinhas desta cidade alfacinha,que é minha é dela.
De mãos dadas, como dois adolescentes, mas eternos namorados,lá fomos recordando;
Paramos em Santa Luzia miradouro,olhamos Alfama.













Passamos pela 1ª escola,foi ali que comecei a estudar,no largo de Sta.Luzia, diz ela ,mais à frente,com um misto de alegria e saudade diz-me ;-ali no Beco da Mó, foi aonde nasci na casa de meus Avós e brinquei com outras tantas crianças,quando estava livre de carros claro, hoje mais parece um parque de estacionamento,onde está a miudagem,perguntou?



Nada, nem uma viva alma!
Recordou os vizinhos que já não estão,os bailaricos no Tejolense,as brincadeiras no pátio dos Quintalinhos-(hoje é um hotel),e a Casa da Pampilhosa da Serra,aonde também conviveu com familiares e conterrâneos.



E assim lá fomos subindo a S.Vicente,Feira da Ladra,Largo de Sta.Clara-aonde frequentou a segunda escola,Igreja de Sta.Engrácia,descendo até Alfama,pelas ruelas estreitas e becos daquela bairro tão típico.

Passámos por onde, tantos e tantos, outros nossos antepassados, que de outras bandas, de norte a sul deste pais, a conquistaram e construíram esta cidade das Sete Colinas ,vivendo nos bairros típicos,criaram raízes e labutaram por uma vida bem melhor.
Foi muito gratificante,havemos de voltar por outros bairros da nossa cidade.
fotos e texto de A.R.Filipe

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

CANTINHOS DE LISBOA V I I I

Continuação:

As Conceições,a Misericórdia e os Freires de Cristo
Voltemos aos de freires Cristo : também estes ficaram sem o seu templo (aquele que substituíra a sinagoga).Ora a reconstrução da antiga igreja da Misericórdia-depois de esta mudar de sítio-acabou por lhes aproveitar. Para lá se mudaram, levando consigo o nome de "Conceição Velha".
Entretanto, também a tal igreja da Conceição ,a "Nova" que situámos na Rua da Prata, mudou de sítio e foi reedificada na confluência entre as ruas da Conceição e Nova do Almada,
na freguesia de S.Nicolau. Acabou por ser demolida já nos anos 50 do século XX. No seu lugar está hoje uma dependência da Caixa Geral de Depósitos. Ficou, assim, a Conceição Velha sem
a Nova a contrapor, mas já presa a uma designação que criara raízes.

O pórtico
A actual igreja da Conceição foi, pois erguida a partir das ruínas da antiga Misericórdia,sob a direcção de Francisco António Ferreira, o "Cangalhas",arquitecto geral da cidade de Lisboa e da obra das Águas Livres. Teve ele o bom senso de aproveitar o antigo pórtico manuelino, que era lateral e passou a ser principal.Trata-se de magnífico exemplar do estilo, com esculturas alusivas á benemérita instituição que ali funcionava. Assim, a figura central é a de Nossa Senhora da Misericórdia.O manto aberto da virgem cobre, de um lado, as figuras ajoelhadas de D.Manuel, de D.Leonor e de outros membros da família real, e do outro lado o Papa Leão X , Frei Miguel Contreiras - o inspirador das Misericódias - e dignatários da igreja.

Pena é que a relativa estreiteza da rua não dê para valorizar muito mais o monumento.

Capela do Santíssimo

Da velha igreja da Misericórdia foi também aproveitada a capela do Santissímo, que havia sido construída no século XVII, por devoção de uma senhora santomense, D.Simão Godinho. O aproveitamento foi feito para a base da actual capela-mor. Senhora do Restelo

O interior da igreja, pequena e de uma só nave,é sóbrio,sendo de salientar algumas imagens de boa qualidade e antiguidade.O relevo irá, antes de mais, para uma Nossa Senhora do Restelo, que veio para a Conceição Velha por mão dos freires de Cristo e que pertencera já à ermida do Restelo, a tal que foi demolida quando da edificação dos Jerónimos.

Imagens e pinturas

A imagem do orago, a Senhora da Conceição,parece ser da autoria do escultor José de Almeida, de cuja escola terão saído também um S.Pedro e um S.Paulo, visíveis em dois nichos. Uma referência merece a Senhora da Atalaia,pequena imagem tida como miraculosa,ali colocada por iniciativa da Direcção -Geral das Alfândegas. Uma palavra ainda para as pinturas dos altares laterais-como uma Piedade e um S.Miguel Arcanjo atribuídas a Bruno José do Vale,um rival de Pedro Alexandrino Manuel Rocha,pintor do século XVIII e seguidor de Vieira Lusitano,é o autor da "Última Ceia" da capela do Santissímo.

Dois pormenores ainda nestas duas fotos finais para se ver o trabalho feito na pedra.Pena que esteja muito suja,merecia mais cuidado e atenção da tutela competente.









Igreja a visitarem,não é fácil obter registo fotográfico.
fotos de A.R.Filipe

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

CANTINHOS DE LISBOA V I I

JÓIA ARQUITECTÓNICA NA RUA DA ALFÂNDEGA
As Conceições,a Misericódia e os Freires de Cristo
Igreja da Conceição Velha com o seu belíssimo pòrtico manuelino,infelismente pouco visivel numa rua estreita cheia de poluição

Nesta viagem à Rua da Alfândega podemos visitar o belo templo que lá se ergue,pelo qual passam diariamente milhares de pessoas,embora se mantenha desconhecido de grande parte delas. O nome tem um jeito bem lisboeta:ConceiçãoVelha. Claro que a presença do adjectivo "velha" indica que houve uma "nova".Ora a história da ambas é simples e conta-se rapidamente: em terrenos próximos da Madelena, num local que poderia situar-se sensivelmente entre as ruas que hoje são as dos Fanqueiros e dos Douradores,erguia-se uma sinagoga.Mas,como é sabido,no reinado de D.Manuel I ,foram expulsos os judeus,pelo que o espaço foi considerado livre. Por outro lado,no mesmo reinado foi edificado o Mosteiro dos Jerónimos, pelo que houve necessidade de alojar noutro local os freires de Cristo,aos quais pertencia a velha ermida do Restelo,derrubada para dar lugar ao majestoso edificio.A solução adivinha-se facilmente:no lugar de sinsgoga surgiu uma egreja dedicada a Nossa Senhora da Conceição, entregue aos ditos frades .Ficou ali, portanto,a "Conceição dos Freires". Mais tarde, em 1698, foi construída,ali bem perto,outra igreja também dedicada à padroeira de Portugal ,Senhora da Conceição. Ficava sensivelmente onde hoje passa a Rua da Prata,nos primeiros quateirões a contar do Terreiro do Paço. Obviamente, passou a ser a Conceição Nova.Como veremos, esta igreja mudou depois de sitio.
Entretanto, muito antes,no século XV,a rainha D.Leonor,mulher de D.João II, fundara as Misericódias, numa capela da Sé .Em breve se viu, porém, que a grandiosidade da instituição ultrapassava em muito a pequenez do espaço que lhe estava reservado.D.Manuel I,irmão da fundadora,cedeu então terrenos e edificios próximos da Ribeira para que aí funcionasse a Misericórdia de Lisboa. A igreja respectiva, grandiosa ,de três naves, ficava com a fachada virada ao que é hoje a Rua dos Armeiros e uma porta a Sul estava sensivelmente onde hoje se abre o pórtico da Conceição Velha .
Veio depois o terramoto, que não poupou a Misericódia nem os templos, da Conceição de que falámos atrás.
A Misericódia acabou por sair do local primitivo para se ir fixar na Casa dos Jesuítas, a S.Roque, onde se mantém até hoje.
Tem continuação em breve;
fotos deA.R.Filipe

terça-feira, 27 de julho de 2010

CANTINHOS DE LISBOA V I

CONTINUAÇÃO:
FADISTA COMO A SEVERA NUNCA O FADO CONHECEU
Acrescente-se,num parêntese,que,no tempo dos amores com o conde de Vimioso,quis este fidalgo afastá-la um tanto da boémia que lhe consumia a saúde.Assim, cedeu-lhe uma casa na Bemposta (freguesia da Pena) e, noutra ocasião,uma habitação da Rua da Amendoeira (muito perto do Capelão). A fadista terá mesmo permanecido um tempo em casa do conde,no seu palácio que ainda se mantém no Campo Grande, esquinando para a Alameda das Linhas de Torres. No entanto,repete-se ,foi na Rua do Capelão que ganhou fama para sempre como cantadeira e autora de letras de fados.
O VIMIOSO

Apesar dos seus dotes,considerados extraordinários,talvez a Severa não tivesse entrado tão difinitivamente na lenda se não fossem os seus amores com o conde de Vimioso. Este fidalgo,
D. Francisco de Paula de Portugal e Castro,de seu nome,era homem dado aos toiros e a uma certa vida boémia.É referido por autores da especialidade como dos melhores cavaleiros tauromáquicos do seu tempo.
Deve-se ter-lhe chegado aos ouvidos a paixão que uma certa fadista da Mouraria tinha pela tauramaquia e a forma como o tinha transformado no seu ídolo, a ponto de ser capaz de descrever,minuciosamente ,toda uma lide. Não resistiu a ir visitá-la.E a paixão nasceu.

UMA BELEZA

As descrições da Severa não coincidem. São, porém, unânimes em a considerar como mulher muito formosa ,esbelta,dona de uns olhos que "tinham lume". Júlio Sousa Costa diz que ela, aos 18 anos , "era alta,delgada mas não magra,seio opulento,pele muito branca,olhos pretos,bastos cabelos negros,sobrancelhas carregadas, boca pequena, muito vermelha, belos dentes, cintura fina e pé pequeno". Tanto terá bastado para que o conde se tivesse aproximado e desse início a uma aventura galante que a Literatura e o teatro transformaram num dos maiores romances da Lisboa do século XIX.

MAU GÉNIO

A ligação entre a Severa e o Vimioso (nome que,por respeito para com os descendentes do fidalgo,Júlio Dantas omitiu, substituindo-o pelo de "Marialva"),não foi tão longa quanto os romances dão a entender.Terá durado uns dois anos e poderá ter sido interrompida mais por culpa da Severa . Na verdade rezam as crónicas que, para além da voz maviosa, do talento inato para compor letras e da formosura fisíca, possuía a fadista um génio bem mau de aturar e uma tendência para a ralé mais ordinária que era possivel imaginar.Qualquer contrariedade, por mais leve,l he despertava as iras , que se traduziam geralmente numa "cena" do mais canalha, na qual os insultos seriam o menor dos males. Alguns cronistas da Mouraria descrevem cenas de " faca na liga" e de pancadaria em que a fadista, talvez ensinada pelo arrebatado génio da sua barbuda mãe, levava a melhor e punha em fuga até homens que a queriam dominar. Não admira que o fidalgo, habituado a outras, maneiras por muito boémio que fosse, se deixasse a certa altura de idas ao Capelão.

UM LIGEIRO REPARO e a titulo de INFORMAÇÃO:

Mesmo de fronte da casa aonde nasceu a Severa, nasceu um dos fadistas mais castiços, popular e também boémio: O FERNANDO MAURICIO conforme mostra a placa .

irei deixar por uns tempos a MOURARIA.
Brevemente postarei assunto relacionado com o portal da igreja da Conceição Velha, na Rua da Alfândega em Lisboa.

fotos de A.R.Filipe

segunda-feira, 5 de julho de 2010

CANTINHOS DE LISBOA V

EX-LIBRIS DO FADO E DE UM BAIRRO

FADISTA COMO A SEVERA NUNCA O FADO CONHECEU
Ao falar-se do Socorro,é obrigatória uma permonorizada referência ao "ex-libris" da freguesia, a Rua do Capelão, em pleno coração da Mouraria. Trata-se de estreita nesga ligada para sempre ao fado e à intérprete que entrou na lenda: a Severa.Ali morou ela e ali a foi buscar a morte quando contava apenas 26 anos.
Na verdade , esta Maria Severa Onofriana,figura real de fadista e boémia,foi decididamente absorvida pelo mito, a tal ponto que se torna hoje extremamente difícil traçar a sua biografia sem tropeçar a cada passo naquilo que sobre ela se escreveu e fantasiou.O escritor Júlio Dantas transformou-a em personagem de romance e em protagonista de peça teatral.O artista Leitão de Barros levou-a a ser heroína de filme.
Outros autores foram acrescentando uns pontos aos contos que a tradição deixara.
De qualquer forma, parece hoje assente que a Severa nasceu na freguesia dos Anjos (vizinha desta do Socorro) em 26 de Junho de 1820 e lá foi baptizada.Depois disso,teve grande número de moradas em Lisboa, dependendo as mudanças primeiro da vida de sua mãe - e depois dos amantes que ela própria foi tendo.
Assim, há noticia de ter a futura fadista vivido em criança na Graça. Parece certo também que morou com a mãe na então Rua da Madragoa ( hoje Rua Vivente Borga, na freguesia de Santos -o- Velho), onde a progenitora tinha uma taberna e onde a então muito jovem intérprete terá começado a bater o fado.Alguns autores chegaram mesmo a apontar a Madragoa como berço da Severa,tese que hoje está afastada: viveu lá mas não nasceu lá.
A mãe, uma tal Ana Gertrudes, tinha por alcunha "a Barbuda", devido aos ornamentos capilares que a sua face exibia.Correu seca -e -meca. A dada altura, já depois da Madragoa,foi fazer recados aos presos e carcereiros da então cadeia do Limoeiro (onde ,fica hoje o Centro de Estudos Judiciários). Assim, mãe e filha assentaram arraiais no ainda existente Pátio do Carrasco, na freguesia de Santiago.
Do pai pouco se sabe,tendo no entanto a fadista herdado dele ao menos o nome : chamava-se Severo.
Mais tarde,a Severa morou ainda na Travessa do Poço da Cidade, no Bairro Alto (freguesia da Encarnação). O escritor Luís Augusto Palmeirim fala numa das suas obras do seu encontro com a Severa, chamando-lhe "grande notabilidade do Bairro Alto".
A morada célebre e que ficou para a história foi,no entanto, a Rua do Capelão número 36.

Rua do Capelão

Não foi, contudo,a única casa da fadista nesta freguesia do Socorro : viveu para aí uns seis meses na Rua do Terreirinho,quando teve por amante um ourives ali domiciliado.

fotos de A.R.Filipe

Continua.....